domingo, 11 de dezembro de 2011

O Homem que Nunca Existiu

Chuva. Começou derrepente e quando percebi já estava caindo o maior temporal. Foi quando comecei a me dar conta da falta que a vida me fazia. Olhei pra mim mesmo: estava ficando ensopado e mesmo assim ainda parado, por vezes andando vagamente entre as ruas. Vejo praças, prédios, lojas, pessoas, cachorros. Vejo tudo... ouço tudo. As pessoas rapidamente foram abrindo seus guardas-chuvas e outras andando rapidamente em busca de abrigo. Olhei pro céu: o tempo nublado ainda tendo em vista um princípio de lusco-fusco ainda deixavam aquele final de tarde ainda mais deprimente. Afinal, quem sou eu? Eu existo mesmo ou isto é um sonho?

Eu decidi andar até uma cobertura próxima para me abrigar da chuva. Comecei a pensar em "casa". Eu queria ir para casa porque é o lugar onde me sinto protegido, mas nem sabia se tinha uma... Não tinha nenhum tipo de conexão com ninguém. Não tinha família, sequer amigos ou namorada. Não conhecia ninguém, ninguém me conhecia também e tampouco queria conhecer. De verdade.

Pra mim as pessoas são tão interessantes quando um café morno. Não tinha memória, não sabia sequer se tinha uma identidade. Tudo que eu tinha era aquele sábado. Aquele propósito de procurar entender melhor o comportamento humano para evitar cometer erros que eu sequer sabiam quais eram. Só queria viver, viver e sentir todo tipo de emoção que a vida proporciona mas eu não vivia mais.

A chuva ficou mais fraca, puxei o capus e comecei a andar ao que me pareceu ser uma grande avenida. As pessoas iam e viam e eu sentia que elas deviam estar demasiadas ocupadas para mim. Com sacolas de compras e celulares a mostra, todos pareciam estar com alguma preocupação em mente.

"Que horas são?" era o pensamento do minuto. Olhei, procurei contato visual, pirragueei, chamei, falei, gritei. Ia propositalmente ao encontro das pessoas e percebia que nada acontecia, era como se eu "atravessasse" elas. Não adiantasse o que eu tentava fazer era como se eu não estivesse lá...

Eu não existo. Não consigo me conformar com isso, como assim eu "não existo"? Eu penso, falo, ajo, mas isso não me parece o bastante... Eu existo sim! Existo! Existo... Droga. Devo ser invisível, ou o mundo está invisível de mim. Nunca pensei que eu iria falar isso mas... como eu queria contato humano! De verdade. Iria me sentir mais "humano", mais "gente", mais "sentimental"...

E ser um "ser humano" é bom afinal de contas? Porque pra mim não é, porque eu sou invisível e incomunicável. Mas serei eu, o único que é assim? Com certeza não.

Sou um indivíduo sitiado afinal de contas. Sou um prisioneiro da própria sociedade. Sou, ou me tornei alguém que eu não gostaria que fosse. Se é que sou um.

Ser incomunicável com os outros deve ser pra lá de chato e deprimente. Mas pelo menos sou invisível, pra ninguém olhar pra mim e expressar repúdio, pena, caridade por mim porque afinal de contas eu não me visto e nem cheiro mal, muito obrigado, imagina só a quantidade de pessoas que sequer devem existir de verdade? Pessoas que moram em locais inacessíveis, ou que sequer tem onde morar ou que vivem dos outros ou dos que vivem em asilos tendo apenas a sua história e seus conhecimentos como item de mais valor. Até porque, se um dia eu não descobrir o que a vida é, eu diria que acharei que é uma busca eterna de adquirir conhecimentos, histórias e sua sobrevivência.

Parei de andar, já é umas sete da noite e a avenida toda está iluminada. Sentei a um banco próximo e voltei a olhar para as pessoas que passavam em frente de mim. Pensei sobre as cinco faces que qualquer pessoa sente quando sabe que vai morrer: A negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. Eu me aceitei.

Nunca ninguém vai saber que eu existo, nunca ninguém vai falar comigo, nunca ninguém vai me fazer sentir algo que não goste. Eu sou incomunicável e também invisível, mas quer saber de uma coisa? Que sorte a minha que sou invisível. Que privilégio o meu que sou assim, porque afinal de contas, quem não gostaria de ser um às vezes né?

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